

A crise climática representa o maior desafio já enfrentado pela humanidade e pode colocar em risco a própria sobrevivência da espécie humana caso não haja mudanças profundas na relação entre sociedade e meio ambiente. O alerta foi feito pelo neurobiólogo, escritor e professor italiano Stefano Mancuso durante a inauguração do Centro de Ciências e Culturas Sesc RJ (CCCS) e da Galeria VÃO, no Rio de Janeiro, nesta terça-feira (9).
Reconhecido internacionalmente por suas pesquisas sobre inteligência vegetal e sustentabilidade, Mancuso afirmou que a humanidade ainda não compreendeu a real dimensão da emergência climática e os impactos que ela pode provocar nas próximas décadas.
“Estamos diante do problema mais grave de toda a história humana. Não se trata de uma crise passageira nem de um ciclo natural. Se não modificarmos radicalmente nossa relação com o planeta, existe um risco real de extinção da nossa espécie”, afirmou.
Dependência das plantas é ignorada pela sociedade
Durante sua palestra, o cientista destacou que um dos principais erros da humanidade é acreditar que pode existir de forma independente dos demais seres vivos, especialmente das plantas.
Segundo Mancuso, o modelo de desenvolvimento adotado pela sociedade moderna ignora a importância do reino vegetal para a manutenção da vida na Terra.
“Viver sob uma lógica de monocultura humana, como se pudéssemos existir isolados das outras espécies, é uma ilusão perigosa que está nos conduzindo ao colapso ambiental”, alertou.
Professor da Universidade de Florença, na Itália, Stefano Mancuso é considerado uma das principais referências mundiais em neurobiologia vegetal. Suas pesquisas buscam compreender como as plantas processam informações, se adaptam ao ambiente e desenvolvem estratégias coletivas de sobrevivência.
Entre suas obras mais conhecidas estão “A Revolução das Plantas”, vencedor do Prêmio Galileo de Divulgação Científica, “A Incrível Viagem das Plantas”, “Nação das Plantas”, “A Planta do Mundo” e “Fitópolis”.
Ciência deve guiar decisões sobre o clima
O pesquisador também criticou o negacionismo climático e defendeu que políticas públicas relacionadas ao meio ambiente sejam baseadas em evidências científicas.
Para ele, tratar o consenso científico sobre o aquecimento global como mera opinião representa um grave equívoco em um momento decisivo para o futuro do planeta.
“É uma tremenda estupidez considerar a ciência apenas uma opinião quando falamos da crise climática. A ciência trabalha com fatos, dados e evidências, não com percepções subjetivas”, afirmou.
Segundo Mancuso, a resistência de setores da sociedade em aceitar as conclusões da comunidade científica dificulta a implementação de medidas capazes de reduzir os impactos das mudanças climáticas.
Menos asfalto e mais árvores nas cidades
Entre as soluções defendidas pelo cientista está a chamada renaturalização dos espaços urbanos. Ele propõe a ampliação significativa das áreas verdes e a redução das superfícies impermeáveis presentes nas grandes cidades.
Para Mancuso, a substituição de parte do asfalto por vegetação é uma medida urgente para combater as ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar e reduzir os impactos das ondas extremas de temperatura.
“Precisamos retirar pelo menos 20% do asfalto das cidades para dar espaço às plantas. Os municípios que começarem essa transformação agora evitarão milhares de mortes e economizarão bilhões em recursos públicos. Quem deixar para agir depois pagará um preço muito maior”, afirmou.
Especialistas apontam que áreas urbanas arborizadas podem registrar temperaturas vários graus inferiores às observadas em regiões altamente impermeabilizadas, contribuindo para a saúde pública e para a adaptação às mudanças climáticas.
Amazônia oferece exemplo de convivência sustentável
Durante sua exposição, Mancuso também destacou exemplos históricos de ocupação humana sustentável na Amazônia.
Segundo ele, antigas civilizações amazônicas demonstraram que é possível construir cidades sem destruir os ecossistemas naturais ao redor.
“As antigas cidades amazônicas foram construídas dentro da floresta, em harmonia com ela. Isso mostra que o ser humano é capaz de desenvolver modelos urbanos que convivam com a biodiversidade em vez de eliminá-la”, explicou.
O pesquisador acredita que a recuperação desse conhecimento pode inspirar novos modelos de planejamento urbano mais sustentáveis para o século XXI.
Inteligência das plantas pode inspirar sociedades humanas
Um dos principais temas estudados por Mancuso é a inteligência vegetal. De acordo com suas pesquisas, as plantas possuem sistemas complexos de comunicação e tomada de decisão distribuídos por todo o organismo, especialmente pelas raízes.
Diferentemente dos animais, que concentram funções em órgãos específicos como o cérebro, as plantas operam por meio de uma inteligência descentralizada e cooperativa.
Para o cientista, esse modelo oferece importantes lições para as sociedades humanas na busca por soluções coletivas para desafios globais, como as mudanças climáticas, a escassez de recursos e a perda da biodiversidade.
Justiça pode acelerar ações climáticas
Além de mudanças culturais e políticas, Mancuso destacou o papel crescente do Poder Judiciário na defesa do meio ambiente.
Segundo ele, processos judiciais contra governos e empresas que descumprem compromissos ambientais têm se mostrado instrumentos eficazes para acelerar a implementação de políticas climáticas.
“Os tribunais podem exercer um papel decisivo para obrigar governos e corporações a cumprirem suas responsabilidades ambientais. A via jurídica tem sido uma das ferramentas mais eficientes para exigir ações concretas”, afirmou.
Exposição une arte, ciência e reflexão ambiental
A passagem de Stefano Mancuso pelo Rio de Janeiro também marcou a inauguração da exposição “Revolução das Plantas”, primeira mostra da Galeria VÃO, inspirada em uma de suas obras mais conhecidas.
A exposição reúne fotografias, pinturas, gravuras e instalações de artistas brasileiros como Luiz Zerbini, Castiel Vitorino Brasileiro, Ana Kemper, Beta Azevedo, Isa Muriá, Moara Tupinambá, Renata Padovan e Rosana Palazyan.
As obras exploram as relações entre natureza, tecnologia, conhecimento científico e modos de habitar o planeta.
A visitação é gratuita e ocorre de terça-feira a domingo, das 10h às 17h.
Segundo o coordenador do Centro de Ciências e Culturas Sesc RJ, Moises Nascimento, a proposta do novo espaço é aproximar a produção científica da sociedade por meio da arte e da reflexão crítica.
“A galeria nasce com o propósito de integrar ciência, cultura e educação, promovendo novas formas de compreender os desafios contemporâneos e as diferentes maneiras de habitar o mundo”, destacou.
A iniciativa amplia o circuito cultural da região central do Rio de Janeiro, que já abriga importantes instituições como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Museu do Amanhã.
Fonte: Com informações Agencia Brasil